O SAGRADO FEMININO E A ARTE DE AMAR


Por muitos séculos a regra foi preservar a atividade sexual para o casamento e apenas dentro dele. Hoje, embora a religião vigente ainda tente perpetuar este valor, o sexo tem sido vivenciado de formas bem diversas. As pessoas são mais flexíveis, menos temerosas, mais espontâneas, mas ainda não se sentem livres mesmo adotando, muitas vezes, posturas que entendem serem mais modernas, ditadas pelas tendências como posturas "de pessoas liberais". Isso indica que mesmo estas posturas "liberais" não condizem com o real anseio de suas almas!

Entendo que a revisão real do valor sexual envolve muito mais do que sair da via de regra e adotar um padrão "moderno". A questão é muito mais complexa, porque requer coragem, compromisso em se aprofundar na vida, nas sombras dos desejos, na obrigação do amadurecimento, no controle de instintos sexuais inferiores e com isso a retomada do aspecto sagrado do corpo e do sexo.
Talvez as palavras sagrado e sexo complementando-se, possam não ter lugar na nossa civilização, mas não era assim em outras épocas...

A perda da nossa Deusa do Amor, de seus templos, suas sacerdotisas, tornou a arte de amar uma manifestação tão particular e materialista que, geralmente, nos esquecemos que essa arte, como todas as outras, é aperfeiçoável e é a mais sagrada de todas.
O peregrino que se dirigia ao templo de Afrodite em Corinto, provavelmente aspirava a esse grau de perfeição, quando celebrava os mistérios da Deusa com uma das inúmeras sacerdotisas em serviço ali.

Por várias razões sabemos muito pouco sobre essas sacerdotisas. As mulheres que abandonavam os afazeres domésticos para dedicarem-se ao Templo realizando atividades consideradas sagradas, incluindo o prazer e união sexual, chocaram muitos estudiosos especializados em civilizações antigas, pois como essas sacerdotisas não correspondiam, absolutamente, a idéia que eles tinham de sacerdócio, esses "homens sábios" traduziram o que significava: "sacerdotisas" como "prostitutas".
Outros grandes colaboradores para sabermos tão pouco sobre essas sacerdotisas foram os cristãos fanáticos que exibiram um ardor especial em destruir os templos, as estátuas e os textos que nos possibilitaria entender e apreciar esse tipo de sacerdócio.

A Grécia, através do intercâmbio e de influências de muitas culturas orientais que os enriqueceram, foi um dos locais mais agraciados pelas Sacerdotisas do Amor.
Afrodite era a versão grega da deusa Ishtar dos babilônios, ou da deusa Inana dos sumérios, ou Astarte dos fenícios. Todas essas deusas e suas sacerdotisas tinham em comum a preservação do princípio central e divino da vida: a união do macho com a fêmea através do desejo.
Canto, dança, música, contadoras de estória, reza, e atividade sexual, para essas civilizações e algumas anteriores a essas, eram atividades de igual importância na vida do indivíduo por manterem seus participantes em estados além do ego ocupando um lugar sagrado.

Estas atividades além de garantirem o treinamento e conhecimento do corpo, o desenvolvimento da criatividade e da intuição, também proporcionavam alegria, prazer e comunhão espiritual.
As mulheres, nessas civilizações, embora voltadas aos afazeres do campo, da cerâmica, da tecelagem, podiam oferecer-se a Deusa em rituais exclusivamente femininos.
A união, portanto, permaneceu como analogia mais poderosa da Unidade Fundamental ou Divina, tornando-se a cerne dos cultos religiosos.

Depois da repressão ao culto de Afrodite, que acabou sendo compreendido, pelos cristãos, como a mesma coisa que as hostis orgias de algumas regiões daquele período, sua arte não mais foi transmitida de uma mulher para outra, de uma sacerdotisa para uma peregrina ou de Safo para suas discípulas.
A partir de então se perdeu a referência sagrada sexual e nossa civilização preocupa-se em praticar sexo para exercer mais o poder, o controle sobre o outro, aplacar a carência e solidão e satisfazer o ego e o desejo, do que para cortejar a beleza e o divino através do outro.

Mesmo com todo materialismo de nossa civilização atual a alma está em busca de profundidade e tentando nos lembrar de que, quando olhamos para o corpo estamos vendo a alma, e quando fazemos sexo, experimentamos o corpo como caminho para os mistérios mais profundos dela. A menos que tenhamos perdido totalmente a sabedoria interior, no sexo também descobrimos o poder e o rumo de nossos desejos mais profundos. Os prazeres que pode nos proporcionar - sexo suave, agressivo, inventivo e
exploratório, jogos, o vestir, o despir, partes do corpo e tipos de beijos, lugares e ambientes - todas essas preferências, tão intimamente ligadas à paixão, nos mostram quem somos, onde nossas almas desejam nos levar e quais são nossos obstáculos, inibições e talentos. Buscamos no sexo não apenas satisfação carnal, mas uma resposta para a necessidade da alma de tudo que o Eros nos oferece, de um mundo unido e uma vida criativa e motivada pelo Amor.

Apresentamos exagerada e obsessivamente aquilo que não possuímos ou que não temos em grande quantidade à nossa disposição. Se apresentamos o sexo com inconveniente exagero e preocupação então não descobrimos sua essência e não o tornamos uma parte totalmente integrada da nossa vida privada e social.

Dada a essa obsessão pelo sexo, precisamos tirar mais dele, não em quantidade, mas em qualidade. Precisamos de mais sexo, não de menos, mas de sexo com alma e com parceiros que nos evoque a divindade!


Texto: Dúnia La Luna - Bibliografia consultada: A Alma do Sexo, Thomas Moore


|Voltar|

 

 


|HOME | DANÇA DO VENTRE|AULAS, PALESTRAS E WORKSHOPS|LABORATÓRIO DE QUADRIL |HETAIRA|
|CULTURAL|DÚNIA|AGENDA|LINKS |CONTATO|

 

 

Dunia - Todos os direitos reservados - All rights reserved:
Webdesigner:
Claudia Offner